segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Instituto de Educação Sarah Kubitschek

    Localizado na Avenida Manoel Caldeira de Alvarenga, no bairro de Campo Grande, o Instituto de Educação Sarah Kubitschek, que leva o nome da primeira dama do Brasil, de 1956 a 1961, esposa do então presidente, Juscelino Kubitschek, é um dos estabelecimentos de ensino mais importantes e tradicionais da Zona Oeste.
    Origem de um projeto do vereador Miécimo da Silva, criando a Escola Normal de Campo Grande, que fora aprovado em 1957, o instituto tornou-se realidade em 1959, quando foi inaugurada a Escola Normal Sarah Kubitschek.
    No início, funcionou em dependências provisórias na Escola Venezuela, localizada entre a Avenida Cesário de Melo e a Rua Amaral Costa. Em 1960, ganha uma sede própria, em um prédio adaptado pelo governo do Rio com a finalidade de abrigar as normalistas e os alunos do Jardim de Infância experimental, na Rua Augusto de Vasconcelos. Em 12 de outubro de 1974 foi inaugurada a sede atual, na já citada Avenida Manuel Caldeira de Alvarenga, como Instituto de Educação.
    Com a criação do "Sarah", como é chamado e conhecido por muitos moradores da região, estava atendida uma antiga reivindicação da população do antigo Sertão Carioca, já que, antes da existência do Instituto, as pretendentes a professoras precisavam cursar no Instituto de Educação, na distante Tijuca. Além disso, os professores que lecionavam na Zona Rural, vindos de outras partes do Rio de Janeiro, depois de um certo período acabavam pedindo "remoção" para escolas mais próximas de suas moradias.
    Assim, com o surgimento do Sarah, grande parte desses problemas acabaram, com a escola sendo um polo de geração de professoras e professores (os moços começaram a ser admitidos em 1962, mas as moças continuam sendo esmagadora maioria) até os dias atuais, personificando um símbolo da educação na região.

58 anos do Instituto, em 2017. Imagem: Fonte: enemconectado.

Referências bibliográficas:
iesarahkubitschek.blogspot.com
O Velho Oeste Carioca - Vol. III - André Luis Mansur

domingo, 23 de setembro de 2018

Adeus Jambalaia

Capa do filme "Campo Grande", de Sandra Kogut

    O dia 23 de setembro de 2018 ficou marcado pela implosão dos prédios que fazem parte de um conjunto conhecido como Jambalaia. Localizado entre a Avenida Manoel Caldeira de Alvarenga e a Rua Valdemar Medrado Dias, em Campo Grande, o local já foi cenário e, em parte, tema de um filme, denominado "Campo Grande".
    Trata-se (ou, tratava-se) de um conjunto de prédios inacabados que abrigava cerca de 400 famílias, vivendo em péssimas condições, com lixo acumulado, esgoto a céu aberto, estruturas danificadas, animais, como cavalos e porcos transitando o mesmo local dos moradores, entre outras. Além disso, era comum buracos nos corredores, trepidações e fiação solta, com um episódio de desabamento de parte de um prédio, em 2013, inclusive.
    Condenados pela Defesa Civil, os prédios foram implodidos na data já citada, com a promessa de construção no local de um condomínio do Programa Habitacional Minha Casa Minha Vida, por parte da Prefeitura do Rio. Ainda de acordo com a prefeitura, todos os antigos moradores, que viviam em condições insalubres, serão reassentados em novos apartamentos.
   

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Além dos laranjais

    Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, é conhecido por ter sido um grande produtor de laranjas, principalmente entre as décadas de 1920 e 1940. O período áureo do bairro é representado em forma de uma escultura, localizada no Centro de Campo Grande, próximo ao Hospital Rocha Faria.
    Porém, o bairro mais populoso da cidade já possuiu um importante ciclo da cana de açúcar e produções de café, e outras culturas de cultivos, lavouras alternativas. Entre os séculos XVII e XIX, assim como em todo o Brasil, Campo Grande foi "palco" das lavouras de banana, do milho, da mandioca, do mamão, além de verduras e legumes, sendo vitais para o sustento da população. Nesse grande período, os bairros de Campo Grande e Guaratiba possuíam um grande número de casas de farinha. A batata-inglesa também era cultivada no bairro. Já o arroz e o feijão não era uma cultura presente, porém cultivados no bairro de Santa Cruz.
    Na Fazenda do Mendanha desenvolveu-se plantações de anil, sendo um dos principais pontos encontrados no Rio de Janeiro, influenciada pelo Pe. Antônio do Couto da Fonseca. Porém, essa cultura não durou muito.
    É bom lembrar que nas planícies de Campo Grande predominava uma vegetação rasteira, conhecida como capoeira, sendo formada de gramíneas de baixo porte. É provável que o nome da vegetação, capoeira, influenciou na denominação da Estrada das Capoeiras. Essa gramínea propiciava o aproveitamento da região como pastos naturais.
    A pecuária não foi muito intensa, praticamente limitando-se ao fornecimento de força de trabalho, na tração de veículos, montarias, entre outras atividades.
    A então Zona Rural também possuiu criação de aves. Na verdade houve um curto ciclo da avicultura em Campo Grande, o qual acabou não vingando pelos seguintes motivos: a alimentação dos aviários vinha de São Paulo, encarecendo a produção, além da queda da produção nos meses quentes.
    Assim, essa atividade começou a declinar na década de 1960, logo depois da queda dos laranjais. Alguns criadores buscaram fabricar a alimentação das aves, adquirindo misturadores, produzindo farelo grosso, fubá e milho moído. Assim, passou a ser comum o arrendamento das instalações e da mão-de-obra de granjas por parte dos abatedouros, com estes pagando aos proprietários sobre o produto final, garantindo os frangos necessários para sua manutenção. 
    Além disso, a cama seca, constituída por aparas de madeira, retirada dos galpões após o crescimento e venda dos frangos, era um ótimo adubo, vendido a agricultores de São Paulo.
    À época destacaram-se como importantes locais de avicultura em Campo Grande a Granja 13, na Estrada do Mendanha; A Granja do Bartolomeu, localizada na Estrada do Mato Alto; e o abatedouro do Garcia, na Estrada do Monteiro.
    Curiosamente, o bairro, como já citado anteriormente, muito conhecido pelo período da produção de laranjas, também possui uma homenagem à época da avicultura. No Centro de Campo Grande, no chão do Calçadão, estão "desenhadas" imagens de galos, com pedras portuguesas, como mostra a imagem abaixo:
Foto. Crédito: Carlos Eduardo de Souza

    A imagem passa despercebida da maioria das pessoas que transitam pelo local, mas com certeza homenageia mais um período relevante da história de Campo Grande. Lembrando que o galo também é o símbolo do Campo Grande Atlético Clube, tradicional clube da Zona Oeste. Porém, nesse caso o motivo é outro, sendo mera coincidência. Ou não?

Bibliografia utilizada: Rumo ao Campo Grande por trilhas e caminhos. José Nazareth de Souza Fróes e Odaléa Ranauro Enseñat Gelabert. 2005.


 

domingo, 19 de agosto de 2018

O Triângulo Carioca

    Muitas pessoas já devem ter ouvido falar numa região conhecida como Triângulo Mineiro, que tem Uberaba, Uberlândia, Araxá, Araguari e Ituiutaba como principais cidades. A região é uma das mais ricas de Minas Gerais, com considerável oferta de emprego e investimentos.
    Porém, talvez poucas pessoas conheçam a região denominada Triângulo Carioca. Formada pelos atuais bairros Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba, a área em questão tem sua história atrelada a uma figura muito conhecida na Zona Oeste: Júlio Cesário de Mello.
     
Imagem: Fonte:  Mapa (FREIRE, Olavo, 1911). Retirada do livro 'Rumo ao Campo Grande por trilhas e caminhos", de Fróes e Gelabert.

    Nascido em Pernambuco, em 1876, Cesário de Mello chegou ao Rio de Janeiro aos 18 anos, formando-se em medicina em 1905. Em 1906 entra para a vida política. Ao lado de outros políticos, entre eles Manoel Caldeira de Alvarenga, também conhecido na região, Cesário de Mello buscou uma projeção política na região conhecida à época como Triângulo Carioca, composta pelos bairros citados anteriormente.
    O então Sertão Carioca foi palco de atuação do político, que construiu uma clínica em Campo Grande, em 1915. Também controlava os matadouros de Santa Cruz e Campo Grande. Com o controle de abastecimento de carnes verdes (aquelas que são de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação) do Rio, conseguiu, através do "assistencialismo" e "empreguismo", "conquistar" cerca de 80% do eleitorado dos bairros de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba, o chamado Triângulo Carioca. 
    Este viveu praticamente da política, pois não cobrava seus serviços médicos, nem em seu consultório, nem em visitas domiciliares que realizava pela região, devido à uma promessa que fizera para mãe, fazendo da medicina um 'sacerdócio", já que esta desejava ver o filho, um padre. Devido a isso tudo, Cesário de Mello ficou conhecido como "Rei do Triângulo".
    Cesário de Mello chegou a ser senador, falecendo em 1952, deixando, aparentemente, uma boa impressão, segundo o jornal local Folha Democrática, que intitulou: "Morreu Júlio Cesário de Mello. Último apóstolo do Sertão Carioca". Outras reportagens e manchetes, como "Sendo pobre, reconhecidamente pobre, talvez por isso mesmo era amado de todos", e "[sua política] era feita na base da estima pessoal, uma espécie de conversa em família, serena e amável", enfatizam a boa imagem de Cesário de Mello. Outro fato que comprova sua popularidade diz respeito a seu velório, reunindo cerca de 5.000 pessoas em sua residência, em Santa Cruz.
    Uma importante avenida que liga Santa Cruz a Campo Grande (na verdade chegando até Senador Vasconcelos), que fez parte da antiga Estrada Real de Santa Cruz, leva o nome dessa grande figura da Zona Oeste, a Avenida Cesário de Melo. Além disso, já existiu, em Campo Grande, um colégio com o nome Cesário de Melo, onde atualmente localiza-se um fórum. Segundo moradores, o colégio em questão "rivalizava" com outros tradicionais do bairro, como Belisário dos Santos e Nossa Senhora do Rosário. Também há uma escola municipal denominada Julio Cesário de Melo, localizada na Estrada de Sepetiba.
Imagem. Fonte: Portal Zona Oeste. Edição: dezembro de 2017.

Fontes consultadas: jornalzo.com.br
                                O velho oeste carioca, volume III. André Luis Mansur


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Campo Grande é Punk

Imagem. SKBPunk Label - Full Album

    O movimento Punk Rock chega ao Brasil praticamente entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, influenciado por bandas inglesas consideradas gêneses do estilo, como The Clash, Sex Pistols, entre outras, surgidas na metade dos anos 1970. Caracterizado por expressões de contracultura, rebeldia, calças rasgadas e visual "afrontador", esse estilo musical e de comportamento influenciou o movimento Rock Brasil 80, como o Aborto Elétrico, de Renato Russo, que mais tarde daria origem a duas bandas: Legião Urbana e Capital Inicial.
    Com um som mais "cru" e "seco", sem se preocupar com acordes e melodias bem elaboradas, o Punk Rock brasileiro teve representatividade em algumas bandas como Inocentes, Cólera, Garotos Podres, entre outras, e no repertório de outras não consideradas punks, como a música "Polícia", do Titãs, "Veraneio Vascaína", do Capital Inicial (música que fora do Aborto Elétrico), algumas do álbum "Que País é este", do Legião, entre outras.
   Localizada no bairro de Campo Grande, Zona Oeste do Rio, a tradicional Pista de Skate de Campo Grande é considerada um dos locais que deram início ao movimento Punk Rock no Rio de Janeiro, por volta dos anos 1981 e 1982.
    Em entrevista a um documentário sobre o movimento Punk Rock no Brasil, o antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna cita que a Pista de Skate de Campo Grande teve uma importantíssima participação no tal movimento, já que a praça reunia alguns "meninos" ligados ao estilo musical e ao esporte radical citado. Um deles, conhecido como Lúcio "Punk" Flávio, era baterista da banda de Punk Rock Coquetel Molotov, e se tornou um dos principais skatistas do Brasil, ao lado de Tatu, que também pertenceu à banda. Os dois, inclusive, conquistaram os campeonatos nacional e internacional de skate. A banda chegou a impressionar até o já citado vocalista da Legião Urbana, Renato Russo, que tornou-se amigo dos integrantes do Coquetel Molotov.
    Depois da dissolução da formação original, em 1984, a banda se reestruturou baseada em uma outra banda, chamada Diário de Bordo, do Méier, e por lá se apresentaram por muitas vezes, principalmente num local denominado Dancy Méier. A banda chegou também a se apresentar no famoso Circo Voador.
    Porém, por ser considerada uma banda underground, e por isso ser mal vista pelas gravadoras, o Coquetel Molotov não chegou a gravar LP ou CD, existindo apenas reproduções de fitas cassetes/rolo convertidos para CDs, nas mãos de alguns poucos colecionadores.
    A Pista de Skate de Campo Grande, inaugurada em 1979, já foi considerada uma das mais modernas da América Latina, sendo palco de competições do esporte e apresentações de bandas alternativas. Entretanto, o local passou por um período de abandono, com aparência ruim, com poucos atrativos, sendo revitalizada e reinaugurada em 2016, com aspecto e visual renovados, feira artesanal e participação da população com atividades ambientais no entorno da pista.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Campo Grande na vertical


  • O bairro mais populoso do Rio de Janeiro deixou sua paisagem tipicamente rural para trás. A urbanização chegou, e com ela o tal progresso (não necessariamente somente algo positivo). Com isso vieram o comércio, as indústrias, os engarrafamentos e os empreendimentos.
  • Nos últimos anos, os diversos investimentos na área industrial transformaram a Zona Oeste num grande atrativo para construtoras e imobiliárias. Há dez anos, Campo Grande já era o bairro da região que registrava mais investimentos, fechando o ano de 2007 como quinto colocado no ranking de lançamentos de novas unidades na cidade.
  •  Com razoável infraestrutura e muitos terrenos, Campo Grande, nos dias atuais, é considerado a menina dos olhos do mercado imobiliário do Rio. Lembrando que o bairro possui um título honorário de cidade, fazendo com que alguns, inclusive, comparem o bairro a uma verdadeira cidade do interior paulista, ou seja, próspero, com economia forte, vida própria e pessoas com renda elevada.
  •  Boa parte de alguns desses empreendimentos no bairro, os condomínios, possui grandes áreas de lazer e estruturas típicas (ou perto disso) dos condomínios da Barra da Tijuca e da Zona Sul, com o objetivo de atender as necessidades de uma classe emergente, ou média alta do bairro e adjacências, exigente de imóveis desse tipo.
  • Além desses investimentos, há também em número considerável, os edifícios comerciais, mudando a paisagem do bairro, principalmente em áreas próximas ao chamado centro de Campo Grande, como mostram as imagens abaixo do mesmo ponto do bairro, próximo ao monumento em homenagem ao prefeito Alim Pedro, na subida do viaduto de mesmo nome. A primeira é do ano de 1959; a segunda, de 2017.
  • Foto. Crédito: Blog as histórias dos monumentos do Rio.
  • F                Foto. Crédito: Carlos Eduardo de Souza.         
     
    • É bom lembrar também dos investimentos voltados para classes um pouco abaixo, espalhados pelos diversos terrenos de Campo Grande, que um dia já foram grandes laranjais, e dos laranjais, só restou monumento.